Boas Perguntas Determinam Boas Ações 03: Alain de Botton e Resiliência

O que o Mestre nos ensina?

“O antigo filósofo romano Sêneca fez muito sucesso ao comandar o que agora chamaríamos de empresa de capital de risco. Era dono de lindas mansões e móveis magníficos, mas tinha o hábito de dormir no chão de uma edícula e comer apenas pão velho e beber água morna. Ele lembrava a si mesmo de que não seria tão ruim assim perder praticamente tudo – de forma a se livrar de preocupações incômodas com uma catástrofe. Essa percepção lhe deu muita confiança. Sêneca nunca se preocupava muito com o que poderia acontecer se algo desse errado, porque, no pior caso possível, voltaria a dormir no chão da cozinha ao lado da cama do cachorro, o que – no esquema das coisas – não era um problema.

O filósofo iniciou um movimento importante. Ao renovar continuamente nossa familiaridade com nossa própria resiliência – isto é, com nossa capacidade de aguentar até se as coisas derem errado (ser demitido, uma relação chegar ao fim, um escândalo destruir nossa vida social, uma doença) –, podemos ser mais corajosos porque entendemos que os perigos que enfrentamos quase nunca são tão grandes quanto nossa assustada imaginação tende a sugerir. Nossa cultura nos apresentaria continuamente histórias encantadoras e não trágicas de ricos que viram pobres, nas quais as pessoas perdem dinheiro, parceiros e posição social, mas acabam lidando muito bem com suas novas vidas. Nós as veríamos se mudando da cobertura para uma cabana humilde e se divertindo muito cuidando de um pequeno canteiro de flores e descobrindo comida enlatada. Nossa cultura não recomendaria tais cenários, e sim diminuiria a imposição de certos medos profundos, mas errôneos, que tão frequentemente nos impedem de tentar e ter sucesso. Na verdade, nossas necessidades essenciais são muito mais simples. Realmente conseguiríamos ficar perfeitamente bem com muito menos, não apenas com relação a posses, mas também em cada aspecto de nossas vidas. Não é que deveríamos querer – simplesmente é porque poderíamos. Podemos lidar muito bem com sermos pobres, não sermos muito populares, não ter uma vida muito longa e morar sozinhos.

Poderíamos até, em um caso extremo, lidar com estarmos mortos; acontece o tempo todo.” Um suspiro de alívio deve ser o resultado para quem compreendeu que ser o superhomem constantemente mais nos fragiliza do que empodera, enquanto que ser o que se é a ponte para a real felicidade tangível. Podemos começar sendo gratos por pequenas coisas para percebermos o quanto já somos afortunados sem as imposições materialistas. O Jeito Harvard de Ser Feliz é uma boa leitura para quem se sentiu incomodado. Para quem não, ainda nos vemos resilientemente no amanhã.

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